Grupo Primo e Oikos: uma aquisição pode integrar negócios sem integrar decisões?

O maior desafio de um processo de M&A surge frequentemente após a assinatura do contrato: como integrar culturas e modelos de decisão distintos? A partir da incorporação da Oikos pelo Grupo Primo, este artigo analisa a importância de alinhar Estratégia, Gestão e Governança para garantir que a integração preserve exatamente o valor que motivou a transação.

O maior desafio de uma aquisição começa depois que o negócio é fechado.

Duas empresas podem ter estratégias complementares, modelos financeiros compatíveis e uma oportunidade evidente de crescimento. Ainda assim, a integração pode encontrar dificuldades em um lugar que nem sempre recebe a mesma atenção durante a negociação: a forma como cada organização toma decisões.

Antes da assinatura, as conversas giram em torno de valuation, sinergias, mercado, clientes e potencial de crescimento. Depois, surgem questões menos visíveis. Quem terá autonomia? Quais decisões serão compartilhadas? Que práticas precisam mudar? E quais características de cada negócio não podem ser comprometidas pela integração? Tudo isso supostamente previsto em acordo de acionistas!

Foi essa reflexão que me chamou a atenção no recente movimento do Grupo Primo.

Uma aquisição que vai além dos números

No dia 6 de outubro, o Grupo Primo anunciou a incorporação da Oikos Wealth Management, em uma transação realizada por troca de ações.

Com a operação, o grupo alcança R$ 34 bilhões em ativos de clientes sob custódia e amplia sua presença no segmento de grandes patrimônios. A ambição anunciada é atingir R$ 100 bilhões até 2028.

Mas o aspecto mais interessante, na minha leitura, não está apenas no crescimento da escala.

O Grupo Primo construiu sua trajetória a partir da educação financeira, da comunicação e da capacidade de alcançar milhões de pessoas. Ao longo dos anos, avançou para consultoria de investimentos e gestão de recursos.

A Oikos traz uma competência complementar: a gestão patrimonial de grandes famílias, marcada por relacionamentos de longo prazo, atendimento especializado e decisões que envolvem patrimônio, confiança e continuidade.

É uma combinação com uma lógica estratégica compreensível.

De um lado, escala, tecnologia e acesso ao mercado. Do outro, especialização e relacionamento com grandes patrimônios.

Mas integrar competências não significa, integrar formas de decidir.

O que realmente muda? 

Uma aquisição não incorpora apenas clientes, receitas, ativos ou profissionais. Ela reúne histórias, lideranças, relações de poder, práticas de gestão e critérios que foram construídos ao longo do tempo.

Imagine duas organizações que compartilham os mesmos objetivos, mas operam com ritmos diferentes. Em uma delas, a velocidade e a padronização são fundamentais para ganhar escala. Na outra, determinadas escolhas exigem análise individualizada, proximidade e maior tempo de relacionamento.

Nenhuma dessas formas de operar é necessariamente superior. O problema aparece quando a integração exige decisões conjuntas e não está claro qual lógica deve prevalecer em cada situação.

É nesse ponto que uma integração empresarial também se torna uma integração decisória.

O risco de comprometer o que motivou a aquisição

Existe uma contradição que merece atenção em operações de M&A. Uma empresa pode adquirir outra justamente pelas competências que a diferenciam e, durante a integração, adotar práticas que enfraquecem essas mesmas competências.

O desejo de padronizar pode comprometer a especialização. A busca por velocidade pode afetar a qualidade de determinadas decisões. E a preservação excessiva da autonomia pode impedir a captura das sinergias que justificaram o negócio.

O desafio não é escolher entre integração e independência. É estabelecer critérios para determinar onde a integração gera valor e onde a diferenciação precisa ser preservada.

No caso do Grupo Primo e da Oikos, as declarações públicas dos envolvidos destacam a compatibilidade de valores, a independência e a complementaridade das competências como fundamentos da operação.

Esse alinhamento declarado é relevante. Mas, em qualquer aquisição, transformar princípios compartilhados em práticas decisórias é um desafio a parte.

A governança 

Quando uma empresa incorpora novos sócios, competências e mercados, sua estrutura de decisão também passa a responder a uma realidade diferente.

É aqui que os três territórios da decisão empresarial ganham importância.

Na Estratégia, é preciso assegurar clareza sobre onde a organização pretende competir e como as competências combinadas produzirão valor.

Na Gestão, o desafio está em integrar processos, recursos e responsabilidades sem comprometer os atributos que diferenciam cada operação.

Na Governança, torna-se necessário definir quem decide, com quais critérios, sob quais alçadas e como serão administradas eventuais divergências.

Esses territórios são interdependentes.

Uma decisão estratégica pode exigir mudanças na gestão. Uma mudança na gestão pode alterar relações de poder. E uma governança inadequada pode comprometer a execução de uma estratégia financeiramente promissora.

Por isso, a integração exige uma arquitetura de decisão compatível com o negócio que está sendo construído.

O valor da aquisição 

Ao longo da minha trajetória executiva, uma questão tem se mostrado recorrente: organizações podem dedicar enorme atenção à decisão de realizar uma transformação e atenção insuficiente ao sistema que precisará conduzi-la.

Em M&A, isso significa reconhecer que a assinatura não encerra a decisão estratégica. Ela inaugura uma sequência de novas escolhas. Algumas envolvem estruturas e processos. Outras envolvem pessoas, influência, autonomia e cultura. Muitas exigirão conciliar interesses legítimos, mas diferentes.

A Engenharia de Decisão parte justamente dessa premissa: decisões de alto impacto não podem ser compreendidas isoladamente do ambiente político, cultural e organizacional em que acontecem.

No movimento entre Grupo Primo e Oikos, não temos acesso às decisões internas que orientarão a integração. Portanto, não cabe antecipar dificuldades ou resultados.

O caso, entretanto, oferece uma reflexão importante para qualquer empresário que esteja considerando uma aquisição, uma fusão ou uma transformação relevante.

A pergunta não é apenas se duas empresas fazem sentido juntas. É se a organização resultante terá condições de decidir de uma forma que preserve e amplie o valor dessa combinação.

Marcos Brandão

CEO & Engenheiro de Decisão

Executivo e conselheiro com atuação focada em decisões estratégicas, integrando estratégia, gestão e governança para estruturar sistemas decisórios que sustentam resultados de longo prazo. Criador da Metodologia Proprietária GROUNDZERO, um framework aplicado antes da decisão que integra leitura estratégica, ancoragem da decisão e execução consciente.

Fundador e CEO da GROUNDZERO, atua ao lado de CEOs e Conselhos de Administração para transformar decisões em vantagem competitiva, tornando visíveis os fatores que influenciam a tomada de decisão e impactam os resultados das organizações.

Foi o executivo responsável por liderar a transformação do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte em um dos mais premiados do Brasil, conduzindo decisões em ambientes de alta complexidade, com múltiplos stakeholders e forte exposição institucional e reputacional.

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